Festa de Iemanjá escancara repressão aos trabalhadores na cidade do desemprego.
Ação da Prefeitura por meio da SEMOP contra ambulantes expõe contradições de Salvador e o silêncio dos vereadores
A Festa de Iemanjá, uma das maiores manifestações culturais e religiosas de Salvador, foi marcada neste ano não apenas pela fé e tradição, mas também por ações repressivas contra trabalhadores informais, levantando questionamentos sobre a política urbana da Prefeitura e a ausência de alternativas para quem depende da rua para sobreviver.
Durante a festa, ambulantes relataram abordagens duras, apreensão e destruição de materiais de trabalho em ações conduzidas pela Secretaria Municipal de Ordem Pública (SEMOP), com apoio da Guarda Civil Municipal. O episódio reacendeu um debate antigo: como organizar o espaço público sem criminalizar a pobreza em uma cidade historicamente marcada pelo desemprego e pela informalidade.
Salvador segue entre as capitais com maiores taxas de desemprego do país, especialmente quando se observa a Região Metropolitana. Mesmo com oscilações recentes nos índices oficiais, a realidade é que milhares de pessoas continuam fora do mercado formal, empurradas para o comércio ambulante como única alternativa de renda. A informalidade não é escolha, é consequência.
Nesse contexto, ações repressivas durante uma festa popular ganham contornos ainda mais graves. Em vez de políticas permanentes de acolhimento, planejamento e regularização, o poder público insiste em operações pontuais que atingem diretamente quem está em situação de vulnerabilidade.
O líder comunitário Betão da Vila, que acompanhou de perto o episódio, sintetizou o sentimento de indignação ao afirmar que organização não pode significar humilhação.
“É inadmissível que um trabalhador seja tratado dessa forma, ainda que esteja sem credenciamento”, afirmou Betão ao comentar a atuação da SEMOP durante a Festa de Iemanjá.
O ponto central da denúncia não é a existência de regras, mas a ausência de política pública estruturada. Planejamento urbano exige estudo prévio, ampliação de vagas, diálogo com os trabalhadores e alternativas reais. O que se viu, porém, foi o oposto: retirada imediata, perda de mercadorias e destruição de instrumentos de trabalho, muitos adquiridos por meio de empréstimos ou compras fiadas.
A situação se torna ainda mais contraditória quando se observa que Salvador constrói sua imagem institucional justamente sobre eventos populares, turismo e ocupação do espaço público, mas age com repressão quando os trabalhadores tentam participar dessa economia.
Durante o Carnaval deste ano, o próprio Ministério do Trabalho resgatou centenas de ambulantes em condições degradantes na capital, evidenciando que a precarização do trabalho informal não é episódica, mas estrutural. Ainda assim, pouco se avançou em políticas permanentes de proteção e inclusão.
A crítica também se estende à Câmara Municipal. Enquanto trabalhadores são reprimidos nas ruas, vereadores seguem em silêncio ou atuam apenas de forma midiática, sem apresentar projetos concretos para enfrentar o desemprego, ampliar a regularização dos ambulantes ou fiscalizar a atuação do Executivo.
Betão da Vila foi direto ao cobrar essa omissão: “Na cidade do desemprego, o que estão fazendo para mudar essa realidade? Nada.”
A Festa de Iemanjá deveria ser símbolo de acolhimento, fé e identidade popular. O que se viu, no entanto, foi mais um capítulo de uma política que trata o trabalhador informal como problema, e não como parte da solução econômica da cidade.
Salvador não pode continuar sendo governada para a propaganda enquanto ignora quem sustenta a cidade com o próprio suor. Sem políticas humanas, planejamento sério e respeito ao trabalhador informal, a repressão segue ocupando o lugar da gestão.

