Do sonho ao vício? Como o futebol pode estar formando uma geração de apostadores.
Especialista alerta para o impacto da publicidade de apostas esportivas sobre crianças e adolescentes e questiona a responsabilidade de atletas, clubes e influenciadores.
Durante décadas, o futebol foi muito mais do que um esporte. Foi um dos maiores símbolos de esperança do povo brasileiro. Nossos ídolos representavam disciplina, superação, talento e a capacidade de vencer por meio da dedicação. Crianças sonhavam em ser Romário, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Neymar e tantos outros. Vestiam suas camisas, imitavam seus dribles e acreditavam que o sucesso era fruto de esforço. Hoje, uma nova realidade ocupa esse mesmo espaço de admiração.
Ao ligar a televisão para assistir a uma partida, acompanhar uma competição internacional ou acompanhar transmissões esportivas nas plataformas digitais, é praticamente impossível escapar das apostas esportivas. Elas aparecem nos uniformes dos clubes, nas placas ao redor do gramado, nos intervalos comerciais, nas entrevistas, nas redes sociais dos atletas e, principalmente, na voz daqueles que conquistaram a confiança da população. Nunca se apostou tanto. Nunca se divulgou tanto.
As transmissões esportivas de maior audiência passaram a dedicar uma enorme exposição às empresas de apostas. Plataformas como a CazéTV, que revolucionaram a forma de consumir esporte e conquistaram milhões de espectadores, também se tornaram espaços altamente valorizados pelas casas de apostas, ampliando significativamente sua presença junto ao público. O esporte, que sempre foi palco de inspiração, passou a dividir espaço com uma publicidade constante que transforma a aposta em algo aparentemente comum e inofensivo.
Mas existe uma pergunta que precisa ser feita: Quando um herói empresta sua imagem para uma marca, ele vende apenas um produto ou também vende confiança?
A publicidade sempre soube que pessoas influenciam pessoas. Durante muitos anos, artistas e jogadores de futebol protagonizaram comerciais de cerveja. Era comum associar felicidade, vitória, amizade e sucesso ao consumo de álcool. Com o avanço das discussões sobre saúde pública e consumo responsável, esse tipo de publicidade passou a receber restrições e críticas cada vez maiores.
Hoje, o cenário mudou. Grande parte dessa influência migrou para outro mercado: o das apostas esportivas.
A diferença é que, enquanto uma cerveja termina quando a garrafa acaba, o ciclo da aposta pode não terminar nunca. Ele pode evoluir para compulsão. Pode destruir o orçamento familiar. Pode comprometer relacionamentos. Pode provocar depressão. Pode alimentar a ansiedade. E, em casos extremos, pode levar pessoas ao suicídio.
Diversos estudos e órgãos públicos já alertam para o crescimento do endividamento relacionado às apostas esportivas. O Tribunal de Contas da União (TCU) estima que o mercado de apostas movimentou cerca de R$ 130 bilhões em 2024 e reconhece a ludopatia como um problema de saúde pública, destacando os impactos sobre a saúde mental e a renda das famílias.
Além disso, uma pesquisa do Procon-SP revelou que 39,7% dos apostadores entrevistados afirmaram ter se endividado após começar a utilizar plataformas de apostas on-line.
Esses dados ajudam a explicar por que milhões de brasileiros entram em um ciclo psicológico conhecido como "perseguição do prejuízo" (loss chasing), comportamento amplamente descrito na literatura científica sobre ludopatia. Nesse ciclo, a pessoa acredita que uma nova aposta poderá recuperar o dinheiro perdido, o que frequentemente leva ao agravamento das perdas financeiras e ao comprometimento da saúde mental.
Enquanto isso, a publicidade continua dizendo, direta ou indiretamente, que apostar faz parte da diversão. E aqui talvez esteja o aspecto mais preocupante. Nenhuma propaganda diz explicitamente para alguém se tornar dependente. Ela apenas normaliza. Ela repete. Ela aparece centenas de vezes, todos os dias, em todos os lugares. A psicologia chama isso de efeito da familiaridade: quanto mais frequentemente somos expostos a uma mensagem, maior tende a ser nossa aceitação dela. Aos poucos, aquilo que antes parecia excepcional passa a parecer natural.
É exatamente assim que a influência atua. De forma silenciosa, sem imposição, sem violência, apenas repetindo. Quando um adolescente vê seu maior ídolo comemorando gols enquanto uma marca de apostas ocupa sua camisa, quando acompanha transmissões em que as apostas são constantemente incentivadas e quando praticamente todos os clubes exibem casas de apostas como patrocinadoras principais, a mensagem construída em seu imaginário é simples: apostar faz parte do futebol. Mas não faz. Futebol é paixão. Aposta é risco financeiro. São coisas completamente diferentes.
É evidente que clubes precisam de patrocinadores, atletas possuem liberdade comercial e empresas atuam dentro da legislação vigente. A discussão não é jurídica. Ela é ética. Até que ponto quem possui enorme poder de influência também possui responsabilidade pelos comportamentos que ajuda a normalizar? Essa não é uma pergunta destinada apenas aos atletas. Ela também alcança influenciadores, artistas, emissoras, plataformas digitais, empresas de comunicação e todos aqueles que transformam audiência em oportunidade comercial.
Toda influência produz consequências. Boas ou ruins. Vivemos um tempo em que os algoritmos disputam nossa atenção a cada segundo. Nunca fomos tão expostos à publicidade. Nunca fomos tão estimulados ao consumo imediato. E talvez nunca tenha sido tão necessário perguntar quem está formando nossos desejos e nossas decisões.
O Brasil não precisa de menos esporte. Precisa de mais consciência. Precisamos continuar admirando nossos heróis pelos valores que representam dentro de campo, e não apenas pelos contratos que assinam fora dele. Porque as crianças continuam olhando para eles. Adolescentes continuam querendo imitá-los. Famílias continuam acreditando naquilo que enxergam repetidamente.
Toda geração escolhe quais símbolos deseja construir. A nossa ainda pode decidir se os heróis do esporte serão lembrados por inspirar sonhos ou por ajudar a transformar o sonho da vitória em uma aposta permanente. Essa escolha não pertence apenas aos atletas. Pertence a todos nós.
Adson Almeida: Especialista em comportamento organizacional e desenvolvimento humano através da imagem.
